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Sobre resolver problemas
19 Mai 2010, 03.41 PM

Na semana passada, de quinta a domingo, a agência recebeu mais uma vez o professor Charles Watson pro terceiro módulo do seu curso de Processo Criativo. Como das últimas duas vezes, em 2005 e 2006 (leia os relatos no meu blog aqui e aqui), uma turma com gente dos mais diferentes departamentos se formou pra receber o gringo especialista numa das atividades mais valiosas na nossa área: distribuição farta de minhocas na cabeça e pulgas atrás da orelha.

Munido de um conteúdo consistente das áreas da biologia, química, neurociência, arte contemporânea, música e arquitetura, Charles Watson ofereceu 16 horas de indagações, conhecimento e ferramentas práticas pra destravar raciocínios, desfazer conceitos e zerar verdade prontas. "Meu trabalho é criar movimento onde não existe" disse ele em alto e bom som durante um dos encontros.

Esse módulo tratava especificamente da resolução de problemas de acordo com três técnicas complementares: imaginação, desenho e manipulação. A primeira técnica é, compreensivelmente, a mais utilizada no nosso meio. Consiste, como você bem sabe, ficar com a mão no queixo e olhar enviesado pro alto tentando achar uma solução formando imagens, esquemas, frases e possibilidade na mente. De um jeito prático, com uma série de exemplos interativos, Charles mostrou o naufrágio de muitos processos que são abordados apenas com a imaginação. E deixou claro que poucas pessoas entendem  as ferramentas do desenho e da manipulação como aliadas cotidianas.

 

 

O que é, vamos combinar, compreensível. A última vez que a maior parte de nós desenhou ou manipulou materiais foi no colégio. E, lá mesmo, essas ferramentas sempre foram rotuladas como habilidades complementares em vez de primordiais ao processo educativo, como poderiam e deveriam ser. Desenhar e manipular, enfim, entraram pra história como coisa de criança, coisa de artista ou coisa de operário. Três figuras simbólicas que não costumam frequentar reuniões de alto escalões em empresas - infelizmente.

Estamos falando do método de trabalho de figuras significativas na história do conhecimento humano. Charles passou pra nós vídeos e imagens pra provar seu ponto. Mostrou que a decodificação do DNA humano só foi possível porque os cientistas envolvidos no trabalho estavam investigando o assunto com um modelo helicoidal feito de metal. Passou um trecho do documentário sobre Frank Ghery, com o próprio e seus parceiros (filmados por outra figura criativa, o cineasta Sidney Pollack) combinando as técnicas de imaginação, desenho e manipulação. Trouxe entrevistas, histórias e imagens do processo de artistas contemporâneos como Beatriz Milhazes (que foi sua aluna), Eduardo Berliner (figura expoente da arte contemporânea brasileira), Francys Allys (cuja obra marcante de storytelling A Fé Move Montanhas esteve na Bienal do Mercosul dois anos atrás) e por aí vai. A lista de referências é grande, rica e mereceria um site próprio.

 

Em comum, além de serem usadas por grandes cientistas, artistas e pensadores, o desenho e a manipulação têm o predicado de colocar na realidade palpável questões insubstanciais. Esse foi um ponto enfatizado por Watson ao longo de todo o workshop. Em um dos módulos anteriores, ele comentou sobre os benefícios das idéias anotadas em papel, não como registro, não como documento, mas como uma forma de mudar a relação entre pensamento e matéria. Idéias no papel ainda não estão executadas, mas estão mais próximas da realidade do que idéias na cabeça. O papel ou um bloquinho (não precisa ser Moleskine) serve, segundo o professor, como um "pedágio de pensamentos".

Enfim. O ponto é que ninguém precisa saber desenhar pra usar o desenho como aliado, nem saber construir maquetes pra se valer da manipulação. Rabiscos e objetos toscos criados com o intuito de ajudar a pensar não têm a necessidade de ser expostos em qualquer galeria, mas abrem caminhos que residem dentro de nós - ou ao nosso redor.

As 16 horas de workshop renderam tantas reflexões que eu poderia escrever mais dez posts. Mas prefiro encerrar por aqui registrando o arrependimento de não ter feito esse workshop quando estava no colégio. Se o curso do Charles existisse naquela época, eu teria uma boa resposta quando a professora de matemática me pegasse desenhando durante a aula. Eu poderia dizer com toda a propriedade que não estava distraído, mas sim que estava resolvendo os problemas propostos.

E, de certa forma, eu estava.

***

Semana que vem, Charles Watson vai estar em Porto Alegre novamente pra dar o primeiro módulo do seu workshop de Processo Criativo. É aberto a todos os interessados. Mais informações aqui.

***

A primeira imagem do post é um dos quadros do Eduardo Berliner na Saatchi Gallery.

O primeiro vídeo é um trecho do documentário Esboços de Frank Gehry.

O segundo é um registro de uma performance do Francis Allys.

autor: Gustavo Mini
categorias:   Arte, Escala
tags:  Tendências
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Projeto Futuro - A Arte Contemporânea é Dadaísta
10 Dez 2009, 10.25 AM

E continuamos com nossa série de posts que revisa essa primeira década do novo século.

Para saber mais sobre o Projeto Futuro, leia aqui a introdução.

O primeiro post, sobre Cultura Colaborativa, está aqui.

Mas vamos agora ao texto da semana...

 

“Quanto mais conhecimento a humanidade tem, mais incerteza tem das coisas”, disse Auguste Comte, um dos fundadores da sociologia. Quando pensamos no volume de informação a que temos acesso hoje em dia, paralelo à dificuldade que até mesmo estudiosos têm de prever o que está por vir nos próximos anos, temos ainda mais certeza desta incerteza. “A dúvida é a única certeza que se pode ter”, essa era a crença de outro pensador, René Descartes. Segundo ele, se não duvidamos, não evoluímos.

No século passado, os artistas plásticos passaram a duvidar das verdades. Uma única linguagem artística – a da estética e da forma – transformou-se em infinitas. A arte formal foi desordenada, gerando novos movimentos, representações e formatos. Um dos movimentos modernos destaca-se por seus conceitos, praticamente todos fundamentados na perda de controle, na experimentação, no questionamento da ordem e, assim, na dúvida. Este movimento é o Dadaísmo.

 



 

Cinco décadas depois da sua fundação (1909), conhecemos “dadaístas modernos” como Andy Warhol e Pollock. E, mais tarde ainda, os artistas plásticos contemporâneos. Estes, assim como os de 1909 e da década de 60, são genuinamente dadaístas. Até porque a dúvida é o status quo contemporâneo.


Por retratar o caos decorrente da dúvida, a arte contemporânea está cada vez mais despreocupada com o que seus experimentos resultam. O processo criativo da arte está sendo muito mais valorizado do que seu resultado, ou seja, do que aquilo que está no museu. A maneira mais intensa e reflexiva de interpretar o caos é experimentando possibilidades, é permitindo que o inusitado aconteça. Este raciocínio explica a quantidade de videoartes e peças interativas que vemos hoje em dia em exposições de arte.



 

Apesar de parecerem desprovidas de fim ou de significado para a maioria dos espectadores, estas obras são na verdade brainstorms expostos, experimentos interativos, caminhos mentais percorridos ali apresentados ao público. Alexandre Dias Ramos, crítico de arte, fez em seu artigo “Sua solução insolúvel” uma analogia muito interessante. Ele escreveu que o fato de entrarmos num congresso de biologia sobre pépodes harpacticóides e não entendermos nada não nos dá o direito de julgar ruim ou absurdo tal conteúdo. Se nossa vontade for a de compreender, cabe a nós ler a respeito, ter subsídios necessários para “decifrar o código”. O mesmo serve para a apreensão adequada de uma obra de arte – não apenas de obras contemporâneas.

 


 

Em um momento em que todos nós continuamos sem muitas certezas do que está por vir, é difícil definir se a arte continuará este caos dadaísta. Novos Duchamps surgem a cada dia, desconstruindo conceitos e impregnando a produção artística de questionamentos. É o que se pode concluir estudando a lista de artistas abaixo relacionada. Contudo, alguns dão indícios de uma nova proposta. Experimentos artísticos mais internos e psicológicos do que externos e tecnológicos representam um olhar para dentro de si, ou seja, uma espécie de novo surrealismo. A desaceleração da tecnologia já prevista há alguns anos pode ser a maior representação de um novo tempo para a arte. Um tempo de “retrocesso evolutivo”, em que se torna necessário resgatar valores humanos. Agora, se analisarmos o trabalho de artistas como Aakash Nihalani (imagem acima), por exemplo, notamos um retrocesso ainda maior: uma volta à simbologia das cavernas. Mais uma vez, a dúvida é a única certeza que temos. Será que chegamos ao estopim da arte, e agora voltaremos, de trás pra frente, à “arte do início de tudo”, quando o ser humano buscava nada mais do que suprir suas necessidades básicas? Sabendo que a perda dos recursos naturais já está em pauta há tempos, este raciocínio parece ser a nossa primeira certeza.

***

Não deixe de conferir o trabalho desses caras.

É só clicar no nome.

Caleb Weintraub. Julie Mehretu. Ghada Amer. Douk Aitken. Tracey Emin. Maurizio Cattelan. Sebastian Ofuszak. Aakash Nihalani. Carl Kleiner. Pjota. Michael Leon. Eleanna Anagnos. Damien Hirst. Ron Mueck.
Andrew Gordon. Blu.

 

 

autor: Fernando Ribeiro
categorias:   Arte, Tendências
tags: 
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