O outdoor aí de cima não foi criado por ninguém aqui da agência, mas pela Tamiris do Carmo, uma menina de nove anos de Bangu. Ela participou da promoção do site da sandália da Hello Kitty, do nosso cliente Grendene, que dava um outdoor inteirinho pras fãs da sandália customizarem com ferramentas online. Além de ter o outdoor veiculado na sua própria cidade, a Tamiris ganhou uma coleção completa da Hello Kitty. E a gente ganhou mais uma criadora no time da agência.
Na semana passada, de quinta a domingo, a agência recebeu mais uma vez o professor Charles Watson pro terceiro módulo do seu curso de Processo Criativo. Como das últimas duas vezes, em 2005 e 2006 (leia os relatos no meu blog aqui e aqui), uma turma com gente dos mais diferentes departamentos se formou pra receber o gringo especialista numa das atividades mais valiosas na nossa área: distribuição farta de minhocas na cabeça e pulgas atrás da orelha.
Munido de um conteúdo consistente das áreas da biologia, química, neurociência, arte contemporânea, música e arquitetura, Charles Watson ofereceu 16 horas de indagações, conhecimento e ferramentas práticas pra destravar raciocínios, desfazer conceitos e zerar verdade prontas. "Meu trabalho é criar movimento onde não existe" disse ele em alto e bom som durante um dos encontros.
Esse módulo tratava especificamente da resolução de problemas de acordo com três técnicas complementares: imaginação, desenho e manipulação. A primeira técnica é, compreensivelmente, a mais utilizada no nosso meio. Consiste, como você bem sabe, ficar com a mão no queixo e olhar enviesado pro alto tentando achar uma solução formando imagens, esquemas, frases e possibilidade na mente. De um jeito prático, com uma série de exemplos interativos, Charles mostrou o naufrágio de muitos processos que são abordados apenas com a imaginação. E deixou claro que poucas pessoas entendem as ferramentas do desenho e da manipulação como aliadas cotidianas.
O que é, vamos combinar, compreensível. A última vez que a maior parte de nós desenhou ou manipulou materiais foi no colégio. E, lá mesmo, essas ferramentas sempre foram rotuladas como habilidades complementares em vez de primordiais ao processo educativo, como poderiam e deveriam ser. Desenhar e manipular, enfim, entraram pra história como coisa de criança, coisa de artista ou coisa de operário. Três figuras simbólicas que não costumam frequentar reuniões de alto escalões em empresas - infelizmente.
Estamos falando do método de trabalho de figuras significativas na história do conhecimento humano. Charles passou pra nós vídeos e imagens pra provar seu ponto. Mostrou que a decodificação do DNA humano só foi possível porque os cientistas envolvidos no trabalho estavam investigando o assunto com um modelo helicoidal feito de metal. Passou um trecho do documentário sobre Frank Ghery, com o próprio e seus parceiros (filmados por outra figura criativa, o cineasta Sidney Pollack) combinando as técnicas de imaginação, desenho e manipulação. Trouxe entrevistas, histórias e imagens do processo de artistas contemporâneos como Beatriz Milhazes (que foi sua aluna), Eduardo Berliner (figura expoente da arte contemporânea brasileira), Francys Allys (cuja obra marcante de storytelling A Fé Move Montanhas esteve na Bienal do Mercosul dois anos atrás) e por aí vai. A lista de referências é grande, rica e mereceria um site próprio.
Em comum, além de serem usadas por grandes cientistas, artistas e pensadores, o desenho e a manipulação têm o predicado de colocar na realidade palpável questões insubstanciais. Esse foi um ponto enfatizado por Watson ao longo de todo o workshop. Em um dos módulos anteriores, ele comentou sobre os benefícios das idéias anotadas em papel, não como registro, não como documento, mas como uma forma de mudar a relação entre pensamento e matéria. Idéias no papel ainda não estão executadas, mas estão mais próximas da realidade do que idéias na cabeça. O papel ou um bloquinho (não precisa ser Moleskine) serve, segundo o professor, como um "pedágio de pensamentos".
Enfim. O ponto é que ninguém precisa saber desenhar pra usar o desenho como aliado, nem saber construir maquetes pra se valer da manipulação. Rabiscos e objetos toscos criados com o intuito de ajudar a pensar não têm a necessidade de ser expostos em qualquer galeria, mas abrem caminhos que residem dentro de nós - ou ao nosso redor.
As 16 horas de workshop renderam tantas reflexões que eu poderia escrever mais dez posts. Mas prefiro encerrar por aqui registrando o arrependimento de não ter feito esse workshop quando estava no colégio. Se o curso do Charles existisse naquela época, eu teria uma boa resposta quando a professora de matemática me pegasse desenhando durante a aula. Eu poderia dizer com toda a propriedade que não estava distraído, mas sim que estava resolvendo os problemas propostos.
E, de certa forma, eu estava.
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Semana que vem, Charles Watson vai estar em Porto Alegre novamente pra dar o primeiro módulo do seu workshop de Processo Criativo. É aberto a todos os interessados. Mais informações aqui.
Inicialmente, eu vinha aqui contar da campanha de Assinaturas da Zero Hora, que tem uma peça bastante inusitada: um filme dirigido por crianças. Legal, né?
Mas na hora em que ia começar a contar sobre isso, me dei conta de que esse filme – e a campanha como um todo - são um ótimo gancho pra falar de uma coisa fundamental em propaganda, seja ela na TV, na Internet, ou onde você imaginar. Falo de ter verdade, autenticidade na propaganda. Acredito que tem uma coisa quando a peça, o conceito são verdadeiros que faz a idéia acontecer naturalmente desde a aprovação com o cliente até a recepção do público.
Por exemplo, esse filme da Zero Hora do qual eu ia e agora vou falar. Por que, afinal de contas ele foi co-dirgido por 4 crianças? Só porque fica bonitinho? Por que é legal?
Não.
Acontece que Zero Hora está falando na campanha sobre ver as coisas de um modo diferente, com aquele espanto com que a gente viu pela primeira vez o mar, um beijo, uma paisagem. E a Zero está falando disso porque ela tem propriedade no assunto. Já se deu conta de que, todo dia de manhã, quando abre o jornal, você vê o mundo pela primeira vez? Sim, o mundo que você tinha visto antes de deitar pra dormir já não existe mais. Um vulcão entrou em erupção, um time ganhou o campeonato, um presidente foi eleito, é um mundo novo. E você vê ele pela primeira vez quando vê a Zero Hora.
Mas aí vem a história das crianças dirigindo o comercial: pensa bem, faz sentindo convidar alguém pra olhar as coisas de um modo diferente sem um olhar diferente? Acredito que não.
E quem no mundo é mais capaz do que uma criança para se surpreender com tudo o que enxerga? Crianças são especialistas em verem as coisas pela primeira vez, dá pra dizer que pra elas tudo é uma manchete de jornal, tudo tem esse brilho da descoberta que a gente queria ver em cada cena do filme.
Pois então: pra fazer uma campanha sobre novo olhar, um novo olhar. Desde a criação até a produção.
Era isso que eu queria dizer sobre ter verdade de comunicação. E acredito que essa tem pra valer.